Procissão dos Passos

 

Segundo o calendário litúrgico da Igreja Católica, a Procissão do Senhor Jesus dos Passos representa o caminho de sofrimento, crucificação, morte e ressurreição de Cristo. Era realizada, em Portugal, entre os séculos XIV e XVIII, aproximadamente, na quinta-feira da Semana Santa, sendo antecipada para um dia antes, devido a controvérsias litúrgicas. Mais tarde, se firmou na quinta-feira da semana anterior ao Domingo de Ramos. No arquipélago dos Açores, em particular, a manifestação acontecia, como até hoje, em diferentes dias da semana anterior à Semana Santa, em suas várias capelas e freguesias.

O costume da Procissão foi trazido para a antiga Desterro pelos povoadores açorianos, no século XVIII. A primeira celebração que se tem notícia foi em 1766, numa quinta-feira, dois anos após à chegada da imagem ao local e da fundação da confraria Irmandade do Senhor Jesus dos Passos - conforme a primeira prestação de contas, datada de 27 de setembro de 1767, onde estão registradas as despesas com os sermões, fitas, tecidos, linhas, cera, feito de balandrau, etc.

Os três momentos importantes do acontecimento são a Lavação, a Transladação e a Procissão. A Lavação da imagem do Nosso Senhor Jesus dos Passos é feita nos pés, rosto e mãos, com um pano embebido em água perfumada, quinze dias antes da Sexta-Feira Santa, por duas crianças menores de seis anos. Esta água perfumada e benta é distribuída entre os populares. Depois é preparada e vestida por quatro senhores, membros da Irmandade. A Transladação acontece no sábado da quinta semana da Quaresma, depois da missa da manhã, com a Procissão do Carregador. É feita a mudança dos vários objetos da Procissão, como castiçais, mesas, escadinha da Verônica, baús, crucifixos, da Capela Menino Deus para a Catedral Metropolitana.

A Procissão de Encontro é realizada no domingo à tarde. As imagens de Cristo e Nossa Senhora saem da Catedral em trajetos diferentes, sendo o cortejo aberto por um estandarte, chamado guião, onde está escrito S.P.Q.R. - Senado de Todo Povo Romano. Reconstituindo o Calvário, é acompanhado por autoridades e milhares de populares, muitos representando as figuras bíblicas de José de Arimatéia, Nicodemus, São João, Maria Mãe, Maria Madalena, Simão Cirineu, Três Beus e Verônica. Acompanhado por inúmeros pagadores de promessa, o séquito é interrompido com algumas paradas, significando as estações da Via Crucis - quando a dor de Cristo é anunciada pelo canto de Verônica. O encontro de Mãe e Filho acontece na praça XV de Novembro, de onde seguem para a Capela Menino Deus, encerrando a Procissão.


A Imagem

Sobre a imagem, que teria chegado no Porto de Desterro, em 1764, escreveu Henrique da Silva Fontes, em "A Irmandade do Senhor dos Passos e o Seu Hospital, e Aqueles que os Fundaram", em 1965: "Nas três frustradas tentativas para entrar à barra do Rio Grande do Sul, feitas pela embarcação que transportava uma imagem do Senhor Jesus dos Passos, e nas três conseqüentes, arribadas ao Porto do Desterro, pareceu visível a Vontade Divina para que a veneranda encomenda ficasse na cidadezinha sede da Capitania de Santa Catarina. (...) A imagem tem a compleição de homem muito alto e representa Nosso Senhor Jesus Cristo num dos seus Passos, no caminho do Calvário, certamente na primeira queda. Com o joelho esquerdo posto no chão, trajando túnica de tecido roxo, que lhe deixa ver os pés, suportando no ombro esquerdo grossa cruz que as duas mãos seguram, cingidos os cabelos longos e verdadeiros por uma coroa de espinhos, manifesta no rosto, em que escorre suor de sangue, profunda angústia, parecendo fitar os olhos nos de que para ele levanta os seus. É assim que hoje se apresenta a imagem. Reza, porém, a tradição - e o exame da estrutura confirma - que, primitivamente, movia a cabeça, os olhos, e a língua, o que lhe aumentava a semelhança com um homem vivo, mas tão atemorizadora a fazia, que foi aconselhável travar-lhe tais momentos. Esta imagem de extraordinária expressividade e beleza, é de autoria atribuída ao escultor baiano Francisco Chagas, homem de cor, alcunhado O Cabra."